Itaipu: uma novela política
Em agosto de 2008, Fernando Lugo assumia o governo do Paraguai, rompendo 61 anos de poder do conservador Partido Colorado. Na posse, uma faixa lembrava a principal promessa de campanha do ex-bispo: pedia a “recuperação de Itaipu”, a usina hidrelétrica que o Paraguai divide com o Brasil desde 1973. A mídia paraguaia reforçava o coro do Brasil “imperialista e explorador” mesmo antes da eleição.

Capa do ABC Color: mídia paraguaia reforçava a tese do imperalismo brasileiro em Itaipu
Pouco depois já estava nas mãos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva um memorando com as reivindicações de Lugo: revisão do Tratado de Itaipu, que vence em 2023, revisão da dívida paraguaia de US$ 18,7 bilhões com a construção da hidrelétrica, que foi financiada pelo Brasil, e liberdade para comercializar a sua cota da energia gerada.
Pelo tratado, cada país tem direito a metade da energia, mas o Paraguai só usa 5% da sua parte. Como o Brasil financiou a obra, o Paraguai abate sua dívida vendendo ao Brasil a cota de energia que não utiliza.
Onze meses de negociações tortuosas e Brasil e Paraguai chegaram a um acordo no último sábado. O Brasil aceitou reajustar em até 200% o preço da energia da que compra do Paraguai e abriu a possibilidade de o sócio vender energia excedente no mercado livre brasileiro. Mas tudo terá que passar antes pelos Congressos dos países.

Lula e Lugo assinam acordo no último sábado em Assunção
Enfraquecido pela crise econômica (o PIB do Paraguai deve cair até 4% em 2009) e por acusações de paternidade, com apoio escasso no Congresso e sem um grande feito em um ano de gestão, Lugo cedeu porque precisava de uma realização para apresentar à sociedade.
No lado paraguaio, foi a vitória da ala moderada, que advogava por uma solução pragmática _a abertura do mercado brasileiro em detrimento da revisão do tratado. Setor encabeçado pelo diretor paraguaio de Itaipu, Carlos Balmelli, ex-presidente do Congresso, integrante do conservador Partido Liberal.
Ao assumir mais protagonismo midiático, Balmelli foi alijado das negociações na reta final pela ala dura paraguaia, de setores mais à esquerda do governo e liderada pelo chanceler Hector Lacognata e pelo militante social Ricardo Camese. Esse setor fez chegar a Lugo, na reta final da negociação, documento que sustentava a tese de que o Brasil “rouba” energia do Paraguai de Itaipu.
Balmelli continuava operando pelas beiradas. Teve encontros paralelos com funcionários brasileiros, como o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, e o assessor internacional de Lula, Marco Aurélio Garcia, e atuou para moderar a posição de setores da mídia local.
Mas o consenso não saiu fácil. Na véspera da assinatura, enquanto presidia a reunião do Mercosul, em Assunção, Lugo recebeu um bilhete dizendo que as negociações caminhavam mal. Deu declarações dizendo que “alguns números não fechavam”. Era que pouco antes, na Chancelaria paraguaia, a delegação brasileira havia deixado a mesa de negociações _o Paraguai queria incluir detalhes na declaração e mantinha seu pleito para venda do excedente de Itaipu para Chile e Argentina.
Mas Lula e Lugo fumaram, literalmente, o charuto da paz em jantar naquela noite. E assinaram o acordo no dia seguinte. O Brasil pediu apoio do Paraguai ao pleito por uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, mas o tema não entrou na declaração conjunta. Lula enfatizou a natureza política do entendimento _"países maiores tem obrigação de ajudar países menores a dar um salto de qualidade"_ e funcionários brasileiros saíram a dizer que a orientação do presidente é que as mudanças não aumentem a conta de luz do consumidor brasileiro.
“Se você escapar como consumidor, poderá vir a pagar como contribuinte”, disse, contudo, o embaixador Enio Cordeiro, subsecretário de Assuntos da América do Sul e representante brasileiro nas negociações, prevendo que o Tesouro deverá assumir o custo das concessões de Lula.
Escrito por Thiago Guimarães às 00h49

