Argentina X Gripe A
Peço desculpas pela ausência, motivada pela correria da cobertura das eleições por aqui (tema para um próximo post), e falo sobre o assunto da vez no país, a gripe A (H1N1), a gripe suína.
Com o avanço da doença na Argentina, a discussão por aqui é se o governo federal está tomando as medidas corretas.
No final de abril, quando o México confirmou 20 mortes no país pela gripe, declarou-se alerta sanitário: o futebol ficou sem torcedores, as missas sem fieis, aulas em todo o país foram suspensas por dez dias, fecharam-se cinemas e bares.
Houve ainda cinco dias de feriado: todos foram aconselhados a permanecer em casa e não trabalhar. Instalaram-se câmeras nos metrôs para medir a temperatura corporal. Depois de uns 20 dias, a curva de contágio começou a se estabilizar.
No Chile, primeiro em número de casos na América do Sul (7.342 infectados e 14 mortes), todosos casos são tratados como suspeitos _administra-se o remédio Oseltamivir, indicado para combater o novo vírus.
A Argentina parece ter acordado agora para a gripe A. Agora se veem pessoas nas ruas tapando o rosto, com máscaras, a rotina começa a ser alterada. Mas ainda não há emergência nacional nem fechamento obrigatório de locais que propiciam grande aglomeração de pessoas, por exemplo.

Os "barbijos", como são chamados por aqui, cada vez mais presentes
Na última segunda-feira, a cidade e a Província de Buenos Aires _que concentram 85% dos casos no país_ declararam emergência sanitária, medida para desburocratizar o manejo de recursos na área de saúde. “Pedimos responsabilidade e colaboração: a quem tenha sintomas, pedimos que fique em casa”, disse o prefeito de Buenos Aires, Maurício Macri.
Dois secretários da cidade contraíram a gripe. "É como uma gripe comum. Na maioria dos casos não acontece nada", afirmou o chefe de gabinete de Macri, Horácio Rodríguez Larreta, que teve febre alta na segunda-feira , mas no dia seguinte já estava melhor.
Por recomendação do governo federal, quase todas as Províncias do país adiantaram as férias escolares. Até então, havia apenas fechamentos voluntários de escolas de Buenos Aires em razão da gripe _a doença começou a se espalhar na região metropolitana, há três semanas, a partir de casos registrados em colégios.
Também começam a pipocar cancelamentos de eventos pelo país _o principal prêmio da TV local foi adiado, uma feira de livros infantis, a corrida de carros TC 2000 em Santa Fé, a liga nacional de rugby.
Os dados do governo federal já não acompanham o crescimento exponencial da doença no país. O último informe, de 26 de junho, apontava 1.587 casos confirmados e 26 mortes. Estima-se que o número seja muito maior, porque as cifras oficiais não incluem doentes de baixa complexidade e atendidos em locais privados.
Apesar de a Argentina ser o terceiro país do mundo com mais mortes confirmadas em razão da gripe A, especialistas dizem que isso ocorre porque há subnotificação de casos, decorrente de doentes que melhoram sem ter procurado o sistema de saúde e suspeitas ainda em estudo. Ou seja, a gripe A não mata mais na Argentina do que em outros lugares.
“As mortes são sempre proporcionais ao número de casos. Se tomarmos apenas os casos confirmados, o número de mortes parece alto, mas as taxas de mortalidade têm que ser calculadas em relação ao total de casos”, me afirmou o presidente da Sociedade Argentina de Infectologia, Pablo Bonvehí.
Dito isso, é bom lembrar que, após o pânico inicial pelo avanço de uma doença desconhecida, hoje se sabe que a taxa de mortalidade da gripe A é semelhante a da gripe comum. De qualquer maneira, a preocupação por uma enfermidade pouco conhecida continua.
Há também um importante componente político. A ministra da Saúde, que já vinha desgastada pelo epidemia da dengue no país no verão (a maior da história argentina) e por disputas com a cúpula sindical pelo controle de recursos, pediu demissão na segunda-feira.
Após sua saída, um médico que integra o comitê de emergência sanitária do governo, uma mesa com especialistas e autoridades da gestão Cristina Kirchner que decide as linhas básicas de combate à doença, afirmou que a ex-ministra havia pedido o adiamento das eleições legislativas nacionais do último domingo.

A ex-ministra Graciela Ocaña e a presidente Cristina Kirchner: divergências no combate à gripe A
A eleição reuniu 20 milhões de pessoas em 13,2 mil locais de votação pelo país, uma potencial fonte de contágio. As imagens do dia foram de eleitores e autoridades usado máscaras e luvas para tentar evitar contágio.
Instalou-se a polêmica: o governo agiu por conveniência política? Não declarou emergência sanitária antes das eleições por receio quanto ao impacto da medida entre os votantes? (houve eleições e o governo perdeu, diga-se de passagem).
O novo ministro da Saúde assumiu nesta quarta-feira e anunciou cerca de R$ 500 milhões extras para o combate à doença. Especialistas afirmam que o pico de contágio no país ainda está por vir, e se daria nas próximas semanas _cruciais na definição de como a gripe A avançará no país.
Escrito por Thiago Guimarães às 00h27

