Conexão Bons Ares
Conexão Bons Ares
 

Crise no luxo argentino

Símbolo do luxo de Buenos Aires e da recuperação argentina pós-crise de 2001-02, a avenida Alvear sente os efeitos da crise mundial. Nos últimos meses, cinco marcas deixaram o local, por quedas nas vendas e dificuldades para importar.

A última a fechar suas portas na via comercial mais sofisticada da capital argentina foi a italiana Emporio Armani. A empresa que comercializa os produtos da marca no país foi afetada por entraves a importações impostos pelo governo argentino desde o início da crise como forma de proteger a indústria nacional. Em abril, promoveu um "queimão" com descontos de ate 60% _atraiu umas 1.250 pessoas.

Ponto da avenida Alvear onde funcionou a grife Hieber, hoje vazio

“A licença [de comercialização] não permite a fabricação local e obrigava a companhia a importar 100% dos produtos [Armani] vendidos na avenida Alvear”, informou a empresa Clothing Brands, que detinha os direitos da marca no país. As restrições também são alvo de reclamações brasileiras.

O movimento nos sete quarteirões da avenida, conhecida pelos palácios de inspiração francesa, galerias de arte e grifes de alta costura, também sobre impactos da queda no turismo e nos gastos dos visitantes.

“Primeiro vinham poucos turistas, depois chegaram os visitantes de má qualidade, que em vez de gastar 3.000 pesos [R$ 1.560] por algo de couro, compram uma camiseta de cem pesos [R$ 52]”, afirma o estilista Georg Hieber, 36, que fechou em março, após três anos, a loja da Alvear da grife nacional que leva seu sobrenome.

O turismo internacional na Argentina caiu pelo sétimo mês consecutivo em abril, último período disponível _baixa de 6% na comparação interanual. Já o dinheiro gasto pelos turistas caiu 20%. Os brasileiros, contudo, são os turistas que mais gastam no país _US$ 124 por dia.

O aviso de “aluga-se” já vai para o terceiro mês no ponto antes ocupado por Hieber. O aluguel da loja de 200m2 sai por US$ 5.500 (R$ 10,7 mil), e há ao menos outros três pontos vazios na avenida.

"Alugo": aviso expõe dificuldades no comércio da avenida da Recoleta

O corretor de imóveis Roberto Guichón diz que a proximidade das eleições no país, que elege legisladores no final do mês, também repercutiu no comércio na Alvear. “Os argentinos adiam suas decisões quando há eleições.” Ele avalia, porém, que a fase ruim é passageira. “A Alvear é uma avenida de glamour e sempre vai ser.”

Escrito por Thiago Guimarães às 19h26

Comentários () | | PermalinkPermalink #

O lado B da cozinha portenha

Para não dizer que não falei de comida, apresento um dos guias mais inusitados da cozinha portenha.

Foi o que a jornalista americana Layne Mosler criou em quase dois anos de textos no blog Go Where the Taxista Takes You, que parte de um método simples para explorar o lado B dos restaurantes da cidade: as dicas dos taxistas locais.

Com sua ideia, que rendeu reportagens por todo o mundo, Layne segue agora para investigar os conhecimentos gastronômicos dos taxistas de Nova York.

Taxi Churrascaria, no bairro de Constituición: a última parada de Layne

No último verão, acompanhei Layne em uma de suas aventuras, que acabou em uma churrascaria da Grande Buenos Aires. O relato segue abaixo.

PS: Não está no blog, mas foi por Layne que conheci, na cidade que “vive de costas para o rio” _referência ao poluído rio da Prata_, um dos melhores lugares para se comer peixe em Buenos Aires, o Nemo. Acredite: na cidade da pizza e da carne, não é tarefa fácil.  

Giro em Buenos Aires

Blogueira norte-americana recorre a taxistas da capital argentina para descobrir restaurantes pouco conhecidos

Nada de parrillas em Puerto Madero ou restaurantes cool de Palermo garimpados em guias gastronômicos e de viagem. Para conhecer o lado B da cozinha de Buenos Aires, a jornalista norte-americana Layne Mosler, 34, elegeu um método muito simples: ela estica o braço e chama um táxi.

"Tenho um pedido estranho: pode me levar ao seu lugar preferido para comer?" É a senha de Mosler para a descoberta de tesouros secretos da culinária portenha, que descreve desde 2007 no blog www.taxigourmet.com, um guia pouco convencional escrito em inglês.

A Folha embarcou com Layne Mosler em uma de suas aventuras. Calejada por experiências com choferes que não entenderam bem o espírito da coisa, ela antes alerta: "Preparem-se para o rechaço".

O taxista Daniel, 38, não se opõe à ideia, mas sugere mais do mesmo. "Palermo tem de tudo." Enquanto rebate a proposta ("Procuramos um lugar de bairro"), Mosler perscruta a vida do motorista: descobre que já foi cozinheiro, trabalha 13 horas por dia e acha que Buenos Aires anda perigosa.

A viagem de 15 minutos termina em Boedo, o bairro do tango. Mas o Mi Lugar -uma parrilla de motivos tangueiros na rua Castro Barros- está fechado. Hora de trocar de guia. "Os taxistas costumam ser menos tímidos", comenta Mosler sobre o lacônico Daniel.

Longe do turismo

Ao sabor de alguns dos 38 mil taxistas da cidade, a jornalista explora a cozinha de bairros distantes do circuito turístico, como a da comunidade genovesa de Villa Devoto e a dos coreanos de Flores.

E arrisca até uma geografia das especialidades portenhas: San Telmo guarda as parrillas, a melhor pizza está no centro, Abasto ganha pelos peruanos, choripán (a versão argentina do pão com linguiça) é na avenida Costanera Sul.

Layne Mosler e o taxista José Luis, em viagem que acabou no Tía Margarita, no bairro de Caballito

Com a rodagem adquirida, Mosler se credencia a opinar em uma polêmica: a fama da carne argentina é exagerada? Diz que não, porém lamenta que a tradição de gado solto em campos abertos -um dos segredos do bife local- esteja perdendo espaço para a criação em regime de engorda confinada, em pequenos espaços.

Fora da cidade

A fome aperta e a busca continua com o taxista Mario, 52. Morador de Avellaneda, no sul da Grande Buenos Aires, diz nunca comer fora da vizinhança. Sugere um lugar por lá em que "a comida é sempre boa". "Não tenho dinheiro para ir sempre, mas levo a família quando posso", diz Mario.

Enquanto conta ter conhecido a mulher no táxi, o torcedor do Independiente ruma para a La Provinciana, na avenida Belgrano, uma mistura de rodízio e casa de festas na principal via comercial de Avellaneda. Nada animador, mas são as regras do jogo criado por Mosler.

Em meio a um globo espelhado, bufês de saladas, massas e peixes, o churrasqueiro sugere a colita de cuadril (alcatra) com chimichurri caseiro -molho típico a base de ervas. Mas quem quase faz valer a viagem, na opinião da autora do blog, é a molleja (timo).

Chorizo e vacio

Radicada em Buenos Aires há três anos, Mosler ainda não tolera alguns miúdos exóticos do churrasco argentino, como o chinchulin -intestino bovino. Elege por ora o bife de chorizo do Don Zoilo (av. Honorio Pueyrredón, 1.406, Villa Crespo) e o sanduíche de vacio (fraldinha) do El Litoral (r. Moreno, 2.201, em Balvanera) como os melhores.

Fez também, a pedido da Folha, um "top five" de suas peripécias de táxi por Buenos Aires. Acertos entre as mais de 50 viagens que, por refletirem o gosto local, muitas vezes terminaram -e mal- na tríade carne-massa-pizza de sempre. Daí a pergunta: os taxistas têm ou não as chaves dos segredos da cozinha portenha?

Para Mosler, suspeita por ter encontrado no projeto a ligação entre as paixões pela gastronomia e pela antropologia, sim. "Fui a lugares que nunca encontraria e a outros bem medíocres. Os taxistas oferecem um meio, não sei se o mais eficiente, mas com certeza é o mais interessante."

As cinco melhores dicas gastronômicas de taxistas portenhos em 2008, segundo Layne Mosler:

1. Albamonte - Av. Corrientes, 6.735 (entre Maure and Olleros) - Chacarita

2. Don Zoilo - Av. Honorio Pueyrredon, 1.406 (esquina Luis Viale) - Villa Crespo

3. Don Lechón - Av. Elcano, 3.607 (at Alvarez Thomas) - Colegiales

4. La Mezzetta - Av. Alvarez Thomas, 1.311 - Chacarita/Colegiales

5. Mi Sueño - Costanera Sul - um dos trailers da região da reserva ecológica Costanera Sul - um carrinho vermelho e amarelo, a um quilômetro da entrada da reserva

crédito das fotos: Layne Mosler e Joshua Partlow (Washington Post), em www.taxigourmet.com

 

Escrito por Thiago Guimarães às 00h25

Comentários () | | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Thiago Guimarães Thiago Guimarães, 29, é correspondente da Folha em Buenos Aires. Foi produtor e repórter da Rede Minas de Televisão, correspondente da Folha em Belo Horizonte, repórter e coordenador-assistente da Agência Folha.

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.