Segredos enterrados de Buenos Aires
Guiado por estudos, o arqueólogo Marcelo Weissel suspeitava que poderia haver algo ali, mas não esperava tanto. No último dia 29 de dezembro, em pleno Puerto Madero, a região mais cara de Buenos Aires, encontrou um barco do período colonial no canteiro de obras de um dos maiores projetos imobiliários do bairro: o Zencity, um complexo de quatro torres onde cada metro quadrado vale US$ 3.200.
Encontrado a oito metros do nível do solo, o navio já é classificado como a principal descoberta arqueológica de Buenos Aires. Em princípio foi tido como um galeão de guerra espanhol do final do século 17 ou início do século 18, mas hoje a hipótese mais provável é que tenha sido uma embarcação mercante, que encalhou em uma antiga praia do rio da Prata, hoje ocupada por terra _o rio sofreu diversos aterros ao longo dos anos.
Além do navio de esqueleto praticamente intacto, foi possível recuperar cinco canhões de uma tonelada cada um, garrafas de cerâmica, cordas e até uma bala de canhão. Agora esse segredo que ficou escondido por mais de 300 anos pode ser visto até 5 de julho, por uma passarela de 80 metros construída no canteiro de obras.

O bom estado de conservação do navio surpreendeu os especialistas
Ainda não se sabe qual será o destino do navio após a exposição. Os arqueólogos buscam recursos para a conservação do achado, agora sujeito a erosão pelo contato com o ar.
Quando soube da descoberta do navio, fui atrás de mais histórias arqueológicas de Buenos Aires. Descobri, por exemplo, o trabalho de Ulises Camino, que promove escavações no bairro portenho de Flores em seus estudos de doutorado.
Camino trabalha em parede de casa do séc.19
Conhecido pela comunidade coreana, Flores fica a cerca de dez quilômetros do centro de Buenos Aires. Era um povoado separado da cidade, a qual se incorporou em 1888. Em um terreno de escoteiros à margem da linha Sarmiento do trem metropolitano, encontrou uma casa do século 19, com garrafas inteiras de rum, vinho, fragmentos de pratos, copos, taças, moedas de 1822 e 1861 e até um ferro de passar a carvão.
A equipe de Camino retira terra em busca de objetos do passado
A região onde Camino trabalha ainda conta com várias casas originais do século 19, que curiosamente eram construídas de frente para a linha do trem. “Flores era um lugar de veraneio, e as casas antigas eram erguidas de frente para a ferrovia porque o trem era o progresso, as pessoas gostavam de vê-lo passar”, diz Camino. De Flores a Buenos Aires levava-se seis horas de cavalo _trajeto que o trem reduziu para uma hora.
Casa do século 19 em Flores, construída de frente para a ferrovia
Camino lamenta a ausência de leis de proteção ao patrimônio que obriguem as empresas, por exemplo, a realizarem estudos de impacto arqueológico quando trabalham em áreas ricas em registros do passado. “Faltam arqueólogos e leis de proteção.”
Dezembro de 2008 foi um mês importante em descobertas arquológicas em Buenos Aires. Foi quando também se localizaram ruínas do Café de Hansen, considerada a primeira casa de tango da cidade, que funcionou entre 1877 e 1912. Os vestigios foram encontrados em meio aos bosques de Palermo, na esquina das avenidas Figueroa Alcorta e Sarmiento. Diz a lenda que ali nasceu e se popularizou o tango argentino.

Fachada do extinto Cafe de Hansen, ou Lo de Hansen, berço do tango portenho
Escrito por Thiago Guimarães às 00h53

