Baú do rock argentino - parte 2
Nasceu em 10 de março de 1950, onde nem ele mesmo queria precisar. “Me lembro muito pequeno em Santa Isabel, Santa Fé. Um povoado onde acho que nasci; ali ou em Buenos Aires, não sei onde nasci, acho que em Buenos Aires, mas estive nos dois lugares”, disse à “Rolling Stone” de junho de 2000.
Morreu 54 anos depois, em 25 de fevereiro de 2005, em um acidente de moto na rodovia 5, em Luján, Grande Buenos Aires. Levou 3.000 pessoas ao seu enterro no cemitério da Chacarita, na capital argentina, sob o som de "Desconfio" (1972): "Um velho blues / me fez lembrar os momentos da minha vida / meu primeiro amor / mas aqui estou tão sozinho na vida / que melhor me vou".
Tempo suficiente para Norberto “Pappo” Napolitano se inscrever na galeria do rock argentino como um de seus fundadores e maior guitarrista. Sentiu a veia roqueira aos 14, depois de uma sessão de Little Richard. Trocou o violão pela guitarra e dali foi a uma vida de rock 'n' roll da mais fina estirpe. Em 1971, aos 21 anos, já lançava em disco seu primeiro projeto, Pappo´s Blues. Teve suas épocas hard rock/metaleira com o Riff, gravou em São Paulo com o Patrulha do Espaço, abriu para AC/DC, Stones, Guns 'n' Roses no auge, dividiu palco com B.B King no Madison Square Garden.
B.B King e Pappo no Madison Square Garden, 1993

"Rolling Stone" argentina, junho de 2000
Para quem quiser mais conhecer mais a música e a história de Pappo, um bom começo é seu site oficial e vídeos disponíveis no You Tube, como este abaixo:
Pappo: "Blues de Santa Fé"
Pappo (1950-2005)
Discografia aqui
E as sugestões do blog (que ainda está longe de ter escutado tudo do mestre):
"Pappo´s Blues 3" (1973) - Pappo´s Blues
"Aeroblus" (1977) - Aeroblus
"Volúmen 7" (1978) - Pappo´s Blues
"Ruedas de Metal" (1981) - Riff
"Macadam 3...2...1...0" (1981) - Riff
"Pappo en Concierto" (1984) - Pappo
Escrito por Thiago Guimarães às 01h27
Campo e operários X Cristina
Ali pelo final de março estive em Armstrong, polo agricultor e da indústria de máquinas agrícolas na Província de Santa Fé, a 400 km de Buenos Aires.
A cidade é cenário de um fenômeno particular, retrato da crise econômica no país: produtores rurais e metalúrgicos se uniram nos reclamos contra o governo.
A passagem rendeu algumas fotos interessantes (não sou fotógrafo, mas às vezes tento), que deixo com uma versão ampliada do texto publicado na ocasião:
Crise une operários e campo contra Cristina
Polo da indústria de maquinário agrícola, cidade de Armstrong é microcosmo dos efeitos da queda do preço dos grãos na Argentina
Metalúrgicos, apoiados por ruralistas, cobram governo em tradicional encrave peronista; aliança é ameaça eleitoral para Casa Rosada
São 15h30 da última quarta-feira e caminhões formam fila na rodovia que liga as três maiores cidades da Argentina -Buenos Aires, Rosário e Córdoba. Metalúrgicos bloqueiam a via com pneus em chamas, liberando a passagem a cada 15 minutos. Ao lado, uma barraca de produtores rurais e a faixa: "Armstrong em pé".
Polo da indústria de máquinas agrícolas, Armstrong é a cara da crise econômica na Argentina. Na cidade de 15 mil habitantes, operários metalmecânicos afetados por suspensões se uniram a ruralistas -em conflito com o governo há um ano- na mobilização pela queda de impostos no setor rural.
Metalúrgicos e ruralistas protestam em Armstrong
Campo e governo estão em guerra na Argentina desde março de 2008, quando a presidente Cristina Kirchner alterou a tributação sobre exportações de soja, principal cultivo do país. Os impostos deveriam variar segundo o preço internacional do produto, então em alta. Produtores promoveram cinco greves e 4.000 bloqueios de estrada e a medida acabou derrubada no Senado.
Em 2009, a pior seca em 50 anos e a crise mundial derrubaram os preços de grãos, mas a alíquota sobre a soja segue a 35%. Os produtores pararam de investir e o conflito com o governo ressuscitou -os ruralistas encerraram em 28 de março o sétimo locaute sob Cristina.
A novidade é que a crise mundial paralisou a indústria ligada ao campo e reforçou o elo operário-agricultor. Em Armstrong, as 74 fábricas de máquinas agrícolas perderam 80% em vendas desde novembro, cortando jornadas e salários dos 1.554 operários, que deixam de comprar.
"No conflito do campo em 2008, a cadeia de valor agroindustrial tomou consciência de si mesma. Hoje um trabalhador que fabrica colheitadeiras sabe que seu posto de trabalho depende da rentabilidade do campo. Isso deu ao campo um peso eleitoral maior do que antes", diz o analista Rosendo Fraga.
Queda de salários
Camisa na cabeça pelo sol, Lorenzo Bersano, 56, engrossa o bloqueio da via em frente à Crucianelli, a fábrica de semeadoras em que trabalha há 40 anos. Jornada reduzida de 12 para 5 horas, trabalha pela manhã e protesta à tarde. Com dois filhos e três netos, viu seu salário cair de R$ 2.400 para R$ 1.100: "O governo tem que resolver essa situação".
Lorenzo Bersano, 56: trabalho pela manhã e protesto à tarde
O contador da Crucianelli, Carlos Montano, 53, diz que a produção da empresa caiu de 60 para 10 máquinas/mês. Apesar do corte na jornada, a empresa ainda paga oito horas/dia aos operários _a baixa salarial vem do fim de horas extras e de prêmios por produtividade. “Estamos nos esforçando para não despedir.”
A poucos metros dali, o ruralista Dionisio Quiroga, 39, procura ferramentas em seu carro, um utilitário Ssangyong ano 2000, para ajudar um metalúrgico que participa do bloqueio. Produtor de carne, soja, milho e alfafa, critica as “retenções extorsivas” sobre as exportações e justifica sua presença: “Os metalúrgicos estão ficando sem trabalho pelos problemas do campo.”
Dionísio Quiroga, 39, e seu trator com a inscrição-protesto: "vendo"
A crise rompeu limites de fábricas e plantações. Na livraria de Miguel Degrá, presidente do Centro Comercial, Industrial e Rural da cidade, as vendas caíram 35%: "Fomos nos dando conta de que o problema é de todos". Para Maurício Cicarelli, dono de uma loja de ferramentas, está "tudo parado".
O primeiro ato conjunto de operários e agricultores pós-crise mundial foi em janeiro em Villa Constituición, outro polo industrial da Província de Santa Fé. Na ocasião, ante 2.500 pessoas, o presidente da Federação Agrária, Eduardo Buzzi, disse que aquilo era "referência" da luta por vir.
Em Armstrong, os metalúrgicos se dizem "autoconvocados", por não terem apoio do seu sindicato, a UOM (União Operária Metalúrgica), aliada do kirchnerismo. "O problema já é multissetorial, é uma má administração do governo", diz o líder Ruben Cicarelli.
Em 26 de março, Cicarelli e Buzzi foram oradores em um ato de forte tom opositor que reuniu 5.000 pessoas no bloqueio da rodovia. Entre o público, chapéus de produtores misturavam-se a bonés de metalúrgicos. O produtor Quiroga levou seu trator com a inscrição “vendo”. Sentado na máquina, o operário Raul Espíndola, 35, três filhos: “Vamos caindo um por um.”
Metalúrgicos da fábrica de tornos Giugge protestavam por trabalho
Eleições
Para o analista Fraga, essa nova união vai repercutir nas eleições legislativas de junho na Argentina -que o governo acaba de antecipar em quatro meses. Embora o campo empregue 9% da população economicamente ativa, diz, a cadeia agroindustrial gera emprego para 35% que "vão votar pensando na renda do campo".
O prefeito de Armstrong, Fernando Fischer, que governa a cidade há 20 anos, é exemplo de político que fez de encraves rurais peronistas centros opositores. Apesar de integrar o Partido Justicialista (peronista, do governo), não poupa críticas. "Néstor Kirchner tem ódio do campo", diz, em referência ao ex-presidente.
Enquanto o governo defende sua política de impostos como forma de redistribuir renda, os operários de Armstrong, e os ruralistas, prometem ficar na estrada até que haja uma solução -hoje completam um mês de bloqueio. "Vamos ficar até que se destrave o conflito", diz Cicarelli, sob o calor do sol e dos pneus queimados.
P.S: Na última semana liguei para o líder sindical Rubem Cicarelli para saber como estava a situação em Armstrong, dois meses depois. Disse que os metalúrgicos deixaram os protestos na rodovia, mas continuam mobilizados porque a crise não cedeu. Uma prova está em informe oficial divulgado na mesma semana: as vendas de máquinas agrícolas caíram 69,8% na Argentina no primeiro trimestre de 2009 em relação ao mesmo período de 2008, como consequência da crise mundial, da seca e do conflito campo-governo.
Escrito por Thiago Guimarães às 00h51

