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A batalha midiática das eleições

Segundo dia de campanha eleitoral na Argentina e uma amostra da batalha midiática que está por vir.

20h30, horário nobre da última terça feira, dia 12. A presidente Cristina Kirchner e um setor importante da oposição protagonizam atos simultâneos.

A TV Pública e o canal de noticias a cabo C5N, o preferido do governo, que monopoliza "furos" e entrevistas com membros do gabinete nacional (Néstor Kirchner falou por 40 minutos com uma rádio do grupo nesta terça-feira), além de boa fatia da publicidade oficial, transmitiam:

Cristina ao vivo no canal 7 (TV Pública)

A C5N, que vem transmitindo na íntegra e ao vivo discursos de Néstor Kirchner, com a presidenta no ar

O canal de notícias TN (Todo Notícias) integra o grupo Clarín, que se afastou do governo durante o conflito com o setor rural _antes chegaram a manter associações táticas_ e agora está em plena batalha com a gestão Kirchner em razão das mudanças que o oficialismo quer promover na regulação do setor (tema de post mais abaixo). O América 24, outro canal fechado de noticias, tem entre seus donos o empresário Francisco de Narváez, principal oponente de Néstor Kirchner na disputa eleitoral de junho. As eleições desses canais para o horário nobre de ontem:

A aliança de centro-esquerda entre UCR, Coalizão Cívica e socialismo lançava seus candidatos oficialmente ontem ao vivo pela TN

Elisa Carrió, referente da oposição no país, na telinha da América 24

Para reflexão, deixo trecho de artigo publicado ontem por Rosendo Fraga, um grande analista da realidade argentina, no site de seu instituto de pesquisa, o Nova Maioria:

"Na noite de 28 de junho [após as eleições], a informação oficial reivindicará que o governo ganhou [as eleições] como primeira minoria, somando votos de governadores que se mantiveram fieis ao oficialismo e dispersando a apresentação de votos opositores. Pelo contrário, a oposição apresentará os resultados em termos de cadeiras e fará a soma de modo diferente. [...] No conflito para impor a interpretação do resultado entre oficialismo e oposição, o papel dos meios [de comunicação] será importante."

É uma batalha que está apenas começando.

Escrito por Thiago Guimarães às 01h59

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A Argentina e a crise

A Vila 17 de Novembro é a maior invasão de terras da história recente argentina. Remete à data em que 7.500 famílias ocuparam um terreno alagadiço do tamanho de 13 campos de futebol, em Lomas de Zamora, na periferia pobre de Buenos Aires.

Contatei um líder comunitário e, no último dia 28, fui visitar a invasão. Encontrei um local inabitável aos meus olhos de classe média: lixo, entulho e esgoto corrente em um terreno tomado por água contaminada _situação que, pela inclinação natural do terreno, se agrava a cada chuva.

Ali também conheci pessoas como a paraguaia Catalina Aguero, 45, que mostrava com bom humor a palafita erguida pelo marido carpinteiro em meio à água poluída. “Tenho minha ilha de Caras.”

E o também paraguaio Alfredo González, 46, que aterrava com entulho o pedaço de brejo em que espera viver no futuro. “Aqui ninguém te ajuda, temos que lutar com as próprias mãos.”

Voltei surpreso por encontrar alegria e esperança em um lugar tão triste. E pensando que a tal busca incessante por felicidade pode ser mais simples _um pouco daquela culpa que move a esmola, redime todo o mal e se esvai no semáforo seguinte.

Deixo o texto que surgiu dessa visita, que parte da experiência dessa favela em construção para tratar da pobreza na Argentina e dos impactos da crise econômica no país:

Por fora das estatísticas, pobreza e desemprego crescem na Argentina

Em meio à crise, 7.500 pessoas invadem terras na periferia de Buenos Aires

Enquanto para o governo da Argentina a pobreza atinge o menor nível em 20 anos -um dos vários índices oficiais sob suspeita de manipulação no país-, a crise econômica viu surgir a maior invasão de terras da periferia de Buenos Aires.

Batizada Vila 17 de Novembro, a enorme favela em construção alude à data em que 7.500 pessoas tomaram uma área de 14 x 6 quarteirões (cerca de 1.400 x 600 metros) de escombros, lixo e água poluída em Lomas de Zamora, a 15 km do Obelisco.

Ali a Folha encontrou o brasileiro César Ramirez, 30, que trocou o trabalho na soja em Naviraí (MS) pela vida no entorno pobre da Grande Buenos Aires. Casou-se e teve um filho no país e agora torce pela posse da terra. Desempregado, montou uma despensa em casa onde vende "até óleo por litro, como os argentinos". "Aqui [Argentina] não tem serviço."

Entrevistando o brasileiro César Ramirez, que montou uma venda na invasão

Ramirez e a Vila 17 de Novembro são expressões da crise econômica na Argentina, que repete o roteiro visto em outros países, com queda na atividade econômica e no comércio exterior, mas também expõe fraquezas do modelo kirchnerista -gestões Néstor (2003-2007) e Cristina Kirchner. Mostram aumento da miséria e deterioração do mercado de trabalho que números oficiais não alcançam.

Para o governo, pobreza e desemprego caíram em 2008 e chegam, respectivamente, a 15,3% e a 7,3% da população. Para calcular o número de pobres, o governo usa o custo da cesta básica -medido com índices de inflação sem credibilidade desde janeiro de 2007, por mudanças de metodologias no Indec (o IBGE local).

"Recalculamos o custo da cesta todo mês e temos diferenças de 50% com o governo. Quando usamos essa cesta, a pobreza não diminui, mas volta a aumentar a partir de 2007", afirma o economista Ernesto Kritz, para quem 11,2 milhões de argentinos (32% da população do país) vivem abaixo da linha de pobreza.

Segundo Kritz, a crise mundial retraiu o consumo e ajudou a baixar a inflação de alimentos, maior responsável pelo avanço da pobreza. "Mas o que se poderia ter ganho com a desaceleração se perdeu na piora do mercado de trabalho."

A Vila 17 de Novembro é um mar de pobreza a 15 km do Obelisco

Outro termômetro da crise argentina é o serviço estatal de conciliação obrigatória para a abertura de ações trabalhistas. No último dia 28, dezenas de pessoas se aglomeravam por atendimento em um só balcão.

"Não temos recursos humanos e materiais para atender a todos", disse o atendente Federico Vendejo. Segundo ele, 40 mil pessoas já abriram ações no serviço neste ano -60% a mais em relação a 2008.

Desemprego

Não há dados consolidados sobre demissões no país, mas desde o início da crise o governo passou a complementar em até R$ 350 os salários de 60 mil trabalhadores privados, sob o compromisso temporário de 1.200 empresas de não demitir.

Para Kritz, há pelo menos 320 mil desocupados fora das cifras oficiais. O governo diz que a economia cresceu 2,4% no primeiro bimestre deste ano -de 2003 a 2008 o PIB avançou, em média, 8% ao ano-, mas informes privados apontam recessão desde outubro.

Anunciada no verão, a bateria de medidas anticrise do governo não decolou. Centrada em créditos para a compra de carros e de eletrodomésticos, atingiu, em média, 10% das metas de vendas. "Anunciava-se um plano de troca de geladeiras, mas no dia seguinte não havia geladeiras nem financiamento", afirmou Vicente Lourenzo, da Confederação Argentina da Média Empresa.

Isolada do crédito internacional desde o calote de sua dívida, em 2002, e com empréstimos que representam apenas 12% do PIB, a Argentina sofreu pouco o contágio financeiro inicial da crise. O impacto veio com as quedas no intercâmbio comercial (30%) e no ritmo de crescimento da arrecadação, que se mantém em alta (14% em abril) pelo efeito da inflação e da estatização dos fundos privados de previdência.

Crianças da Vila 17 de Novembro brincam em água insalubre

Fuga de capitais

"A estatização gerou uma saída de capitais ainda maior na economia", afirma Marina Dal Poggetto, da consultoria Bein e Associados. A fuga de capitais chegou a US$ 23 bilhões em 2008 e neste ano já supera em 150% a do mesmo período do ano passado.

Dos superávits que sustentaram os anos de crescimento, o comercial se mantém pelos entraves a importações adotados pelo governo desde o início da crise -e que reduziram em 43% as vendas brasileiras ao país vizinho neste ano. Já o superávit fiscal registrou queda de 61% em março, em um cenário de gastos em alta e compromissos financeiros crescentes.

O economista Aldo Ferrer, ligado ao governo, afirma que a Argentina está longe de uma crise como a de 2001-2002. "A situação fiscal está sólida e não há problemas de dívida. O setor financeiro está sólido e solvente, e o banco central tem bom nível de reservas [US$ 46 bilhões; o Brasil tem US$ 201,5 bilhões] e capacidade de administrar o câmbio."

Longe dessa discussão e perto da crise, o brasileiro César Ramirez tem outra preocupação: o destino de seu lote invadido na Vila 17 de Novembro. Após seis meses, a área foi declarada de interesse público para desapropriação, mas a negociação do Estado com os donos das terras segue a passos lentos. "Se tudo der certo, em um ano volto para o Brasil."

Um sonho conjunto: entrada de uma das casas da Vila 17 de Novembro

 

Escrito por Thiago Guimarães às 01h40

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A camiseta da discórdia

O site espanhol Futbolis.com, de venda de camisas de futebol, abriu uma briga com os argentinos ao mexer com a entidade maior do país: Diego Maradona, "el Dios".

Em uma das camisetas, chamada "El campo de Dios", o atual técnico da seleção aparece com a cara sobre a linha de cal do escanteio _alusão a um notório hábito de Diego que hoje se supõe superado.

 

A camiseta "El campo de Dios" faz alusão ao vício em cocaína do astro argentino

Segundo o La Nación, a camisa chegou a ser retirada do site após reclamações de membros de outro site, o Tremendamente Motivados, de argentinos fanáticos por futebol.

Mas o gerente da tenda virtual de camisetas manteve a oferta e respondeu: "Os desenhos não me parecem ofensivos. São mais é engraçados, e me agradam. O que não gosto é de censores sem humor".

Ao menos até hoje, a camiseta continuava disponível no site, por 15 euros (R$ 42)

Escrito por Thiago Guimarães às 00h31

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PERFIL

Thiago Guimarães Thiago Guimarães, 29, é correspondente da Folha em Buenos Aires. Foi produtor e repórter da Rede Minas de Televisão, correspondente da Folha em Belo Horizonte, repórter e coordenador-assistente da Agência Folha.

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