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Itaipu: uma novela política

Em agosto de 2008, Fernando Lugo assumia o governo do Paraguai, rompendo 61 anos de poder do conservador Partido Colorado. Na posse, uma faixa lembrava a principal promessa de campanha do ex-bispo: pedia a “recuperação de Itaipu”, a usina hidrelétrica que o Paraguai divide com o Brasil desde 1973. A mídia paraguaia reforçava o coro do Brasil “imperialista e explorador” mesmo antes da eleição.

Capa do ABC Color: mídia paraguaia reforçava a tese do imperalismo brasileiro em Itaipu

Pouco depois já estava nas mãos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva um memorando com as reivindicações de Lugo: revisão do Tratado de Itaipu, que vence em 2023, revisão da dívida paraguaia de US$ 18,7 bilhões com a construção da hidrelétrica, que foi financiada pelo Brasil, e liberdade para comercializar a sua cota da energia gerada.

Pelo tratado, cada país tem direito a metade da energia, mas o Paraguai só usa 5% da sua parte. Como o Brasil financiou a obra, o Paraguai abate sua dívida vendendo ao Brasil a cota de energia que não utiliza.

Onze meses de negociações tortuosas e Brasil e Paraguai chegaram a um acordo no último sábado. O Brasil aceitou reajustar em até 200% o preço da energia da que compra do Paraguai e abriu a possibilidade de o sócio vender energia excedente no mercado livre brasileiro. Mas tudo terá que passar antes pelos Congressos dos países.

Lula e Lugo assinam acordo no último sábado em Assunção

Enfraquecido pela crise econômica (o PIB do Paraguai deve cair até 4% em 2009) e por acusações de paternidade, com apoio escasso no Congresso e sem um grande feito em um ano de gestão, Lugo cedeu porque precisava de uma realização para apresentar à sociedade.

No lado paraguaio, foi a vitória da ala moderada, que advogava por uma solução pragmática _a abertura do mercado brasileiro em detrimento da revisão do tratado. Setor encabeçado pelo diretor paraguaio de Itaipu, Carlos Balmelli, ex-presidente do Congresso, integrante do conservador Partido Liberal.

Ao assumir mais protagonismo midiático, Balmelli foi alijado das negociações na reta final pela ala dura paraguaia, de setores mais à esquerda do governo e liderada pelo chanceler Hector Lacognata e pelo militante social Ricardo Camese. Esse setor fez chegar a Lugo, na reta final da negociação, documento que sustentava a tese de que o Brasil “rouba” energia do Paraguai de Itaipu.

Balmelli continuava operando pelas beiradas. Teve encontros paralelos com funcionários brasileiros, como o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, e o assessor internacional de Lula, Marco Aurélio Garcia, e atuou para moderar a posição de setores da mídia local.

Mas o consenso não saiu fácil. Na véspera da assinatura, enquanto presidia a reunião do Mercosul, em Assunção, Lugo recebeu um bilhete dizendo que as negociações caminhavam mal. Deu declarações dizendo que “alguns números não fechavam”. Era que pouco antes, na Chancelaria paraguaia, a delegação brasileira havia deixado a mesa de negociações _o Paraguai queria incluir detalhes na declaração e mantinha seu pleito para venda do excedente de Itaipu para Chile e Argentina.

Mas Lula e Lugo fumaram, literalmente, o charuto da paz em jantar naquela noite. E assinaram o acordo no dia seguinte. O Brasil pediu apoio do Paraguai ao pleito por uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, mas o tema não entrou na declaração conjunta. Lula enfatizou a natureza política do entendimento _"países maiores tem obrigação de ajudar países menores a dar um salto de qualidade"_ e funcionários brasileiros saíram a dizer que a orientação do presidente é que as mudanças não aumentem a conta de luz do consumidor brasileiro.

“Se você escapar como consumidor, poderá vir a pagar como contribuinte”, disse, contudo, o embaixador Enio Cordeiro, subsecretário de Assuntos da América do Sul e representante brasileiro nas negociações, prevendo que o Tesouro deverá assumir o custo das concessões de Lula.

Escrito por Thiago Guimarães às 00h49

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Baú do rock argentino - parte 3

Formado em dezembro de 1993, em Buenos Aires, o Pez (“peixe”, em português) é uma daquelas bandas que, embora tenha aval da crítica e uma legião de fãs, lamentavelmente não ultrapassam as fronteiras do país de origem.

Algo tem a ver com a filosofia sem concessões comerciais da banda, que começou como um trio “duro e experimental” de pegada punk e que hoje flerta abertamente com o rock progressivo.

Com Ariel Minimal à frente, o Pez em fevereiro de 2009, durante gravação do CD "El Porvenir"

Indicado por um amigo, fui conferir o show. É, de longe, a performance mais intensa que já presenciei de uma banda argentina. Músicos excelentes, som coeso, show sem pausas. O destaque é o guitarrista e frontman, Ariel Minimal, virtuoso e frenético.

A música lembra algo dos clássicos do progressivo dos anos 70: Mutantes, Casa das Máquinas. É como se processassem todas as referências e clichês de 60 anos de rock, mas ainda soando novos e originais.

Show do Pez em fevereiro de 2009 no Niceto Club, Buenos Aires

Pelo site do Pez, que é muito bom, é possível conferir dezenas de vídeos e áudios da banda. Deixo dois vídeos por aqui, do DVD “Sesión de Espiritismo” (2008):

"Ni discos de Bob", do CD "Los Orfebres" (2007)

A superprodução nada comercial para "Ultimo Acto" (2007)

Pez (1993-)

Ariel Minimal: voz e guitarra

Franco Salvador: bateria e coros

Fósforo García: baixo e coros

Pepo Limeres: piano elétrico e órgão

Discografia:

"El Porvenir" (2009)

"Sesión de Espiritismo" - DVD (2008)*

"Los Orfebres" (2007)*

"Hoy" (2006)

"Para las Almas Sensibles" (ao vivo) (2005)*

"Folklore" (2004)

"El sol detrás del sol" (2002)

"Convivencia sagrada" (2001)

"Frágilinvencible" (2000)*

"Pez" (1998)

"Quemado" (1996)

"Cabeza" (1994)

* sugestões do blog

fotos: www.pezapesta.com.ar/fotos.htm

Escrito por Thiago Guimarães às 22h56

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Gripe A na Argentina: perguntas e respostas

A Prefeitura de Buenos Aires publicou na internet um guia com informações sobre o avanço da gripe A no município.

Selecionei algumas questões do documento, que pode ser visto aqui, e acrescentei algumas respostas sobre dúvidas comuns sobre a doença na Argentina. Uma contribuição à precaução informada, melhor antídoto ao medo desinformado.

1) O que está acontecendo?

Entrou no país o vírus H1N1, conhecido como gripe A ou gripe suína, que pode gerar transtornos graves de saúde, e ninguém está isento de contraí-lo.

2) Por que isso acontece na Argentina?

O vírus se propagou pelo mundo e hoje está presente em 119 países. Diferentemente do México, na Argentina o vírus entrou no começo do inverno, o que facilita sua propagação.

3) Qual é a situação na cidade de Buenos Aires?

A cidade de Buenos Aires e a Grande Buenos Aires são consideradas atualmente zonas de alta transmissibilidade. Pessoas que padecem de quadros gripais (febre de 38 graus ou mais, dor de garganta, tosse, dor de cabeça, prostração e outros) são consideradas casos suspeitos de gripe A, e não precisam de resultados de laboratórios para adotar medidas de precaução.

4) Os hospitais estão preparados para oferecer a atenção necessária?

Sim, todos os hospitais e centros de saúde estão a serviço da emergência sanitária.

5) A cidade conta com um número telefônico para consultas sobre a gripe A?

Sim, conta com a linha 147.

6) É arriscado ir a restaurantes ou assistir a espetáculos em cinemas e teatros?

Nessa etapa da epidemia, se decidir ir a esses lugares, é aconselhável respeitar uma distância de aproximadamente dois metros entre as pessoas. Em Buenos Aires (capital), não há fechamento obrigatório de locais públicos, mas suspensão voluntária e temporária de espetáculos teatrais e eventos esportivos e culturais.

7) É arriscado andar de metrô, trem ou ônibus?

Nessa etapa da epidemia, tomando as medidas de prevenção e higiene pessoal, não é arriscado andar de metrô, trem ou ônibus. É importante lavar as mãos ao sair dos meios de transporte e não levá-las ao rosto. Pessoas com a gripe A devem evitar usar esses meios de transporte.

8) Por que no México se suspenderam todas as atividades e na Argentina não?

Quando a gripe A começou a se expandir no México foi declarada epidemia. O país tomou a decisão de suspender todas as atividades porque se desconhecia o vírus, sua forma de contágio e não havia definição sobre o tratamento. Na Argentina a gripe A chegou quando já havia sido declarada pandemia, o conhecimento sobre o vírus e sua forma de prevenção eram maiores e o tratamento já estava definido. Por isso, as medidas adotadas hoje são necesárias para o nível de evolução da enfermidade.

9) Quantos casos há na Argentina?

Segundo o informe mais recente do Ministério da Saúde, de 5 de julho, havia 2.485 casos confirmados em laboratório no país, com 60 mortes. A região de Buenos Aires _capital e Província_ reúne 75% dos casos no país. O governo federal, contudo, estima que haja 100 mil casos no país _que incluem pessoas que melhoram sem ter procurado o sistema de saúde e suspeitas ainda em estudo. Com o avanço da epidemia, só casos graves são submetidos a teste de laboratório.

10) A gripe na Argentina mata mais do que em outros países?

Não, segundo o governo e infectologistas do país. A taxa de mortalidade deve ser calculada em relação ao total de casos, e não em relação aos casos confirmados. Segundo o governo federal, cerca de 4.000 pessoas morrem na Argentina por ano em decorrência da gripe comum.

 

Escrito por Thiago Guimarães às 01h24

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Argentina X Gripe A

Peço desculpas pela ausência, motivada pela correria da cobertura das eleições por aqui (tema para um próximo post), e falo sobre o assunto da vez no país, a gripe A (H1N1), a gripe suína.

Com o avanço da doença na Argentina, a discussão por aqui é se o governo federal está tomando as medidas corretas.

No final de abril, quando o México confirmou 20 mortes no país pela gripe, declarou-se alerta sanitário: o futebol ficou sem torcedores, as missas sem fieis, aulas em todo o país foram suspensas por dez dias, fecharam-se cinemas e bares.

Houve ainda cinco dias de feriado: todos foram aconselhados a permanecer em casa e não trabalhar. Instalaram-se câmeras nos metrôs para medir a temperatura corporal. Depois de uns 20 dias, a curva de contágio começou a se estabilizar.

No Chile, primeiro em número de casos na América do Sul (7.342 infectados e 14 mortes), todosos casos são tratados como suspeitos _administra-se o remédio Oseltamivir, indicado para combater o novo vírus.

A Argentina parece ter acordado agora para a gripe A. Agora se veem pessoas nas ruas tapando o rosto, com máscaras, a rotina começa a ser alterada. Mas ainda não há emergência nacional nem fechamento obrigatório de locais que propiciam grande aglomeração de pessoas, por exemplo.

Os "barbijos", como são chamados por aqui, cada vez mais presentes

Na última segunda-feira, a cidade e a Província de Buenos Aires _que concentram 85% dos casos no país_ declararam emergência sanitária, medida para desburocratizar o manejo de recursos na área de saúde. “Pedimos responsabilidade e colaboração: a quem tenha sintomas, pedimos que fique em casa”, disse o prefeito de Buenos Aires, Maurício Macri.

Dois secretários da cidade contraíram a gripe. "É como uma gripe comum. Na maioria dos casos não acontece nada", afirmou o chefe de gabinete de Macri, Horácio Rodríguez Larreta, que teve febre alta na segunda-feira , mas no dia seguinte já estava melhor.

Por recomendação do governo federal, quase todas as Províncias do país adiantaram as férias escolares. Até então, havia apenas fechamentos voluntários de escolas de Buenos Aires em razão da gripe _a doença começou a se espalhar na região metropolitana, há três semanas, a partir de casos registrados em colégios.

Também começam a pipocar cancelamentos de eventos pelo país _o principal prêmio da TV local foi adiado, uma feira de livros infantis, a corrida de carros TC 2000 em Santa Fé, a liga nacional de rugby.

Os dados do governo federal já não acompanham o crescimento exponencial da doença no país. O último informe, de 26 de junho, apontava 1.587 casos confirmados e 26 mortes. Estima-se que o número seja muito maior, porque as cifras oficiais não incluem doentes de baixa complexidade e atendidos em locais privados.

Apesar de a Argentina ser o terceiro país do mundo com mais mortes confirmadas em razão da gripe A, especialistas dizem que isso ocorre porque há subnotificação de casos, decorrente de doentes que melhoram sem ter procurado o sistema de saúde e suspeitas ainda em estudo. Ou seja, a gripe A não mata mais na Argentina do que em outros lugares.

“As mortes são sempre proporcionais ao número de casos. Se tomarmos apenas os casos confirmados, o número de mortes parece alto, mas as taxas de mortalidade têm que ser calculadas em relação ao total de casos”, me afirmou o presidente da Sociedade Argentina de Infectologia, Pablo Bonvehí.

Dito isso, é bom lembrar que, após o pânico inicial pelo avanço de uma doença desconhecida, hoje se sabe que a taxa de mortalidade da gripe A é semelhante a da gripe comum. De qualquer maneira, a preocupação por uma enfermidade pouco conhecida continua.

Há também um importante componente político. A ministra da Saúde, que já vinha desgastada pelo epidemia da dengue no país no verão (a maior da história argentina) e por disputas com a cúpula sindical pelo controle de recursos, pediu demissão na segunda-feira.

Após sua saída, um médico que integra o comitê de emergência sanitária do governo, uma mesa com especialistas e autoridades da gestão Cristina Kirchner que decide as linhas básicas de combate à doença, afirmou que a ex-ministra havia pedido o adiamento das eleições legislativas nacionais do último domingo.

A ex-ministra Graciela Ocaña e a presidente Cristina Kirchner: divergências no combate à gripe A

A eleição reuniu 20 milhões de pessoas em 13,2 mil locais de votação pelo país, uma potencial fonte de contágio. As imagens do dia foram de eleitores e autoridades usado máscaras e luvas para tentar evitar contágio.

Instalou-se a polêmica: o governo agiu por conveniência política? Não declarou emergência sanitária antes das eleições por receio quanto ao impacto da medida entre os votantes? (houve eleições e o governo perdeu, diga-se de passagem).

O novo ministro da Saúde assumiu nesta quarta-feira e anunciou cerca de R$ 500 milhões extras para o combate à doença. Especialistas afirmam que o pico de contágio no país ainda está por vir, e se daria nas próximas semanas _cruciais na definição de como a gripe A avançará no país.

Escrito por Thiago Guimarães às 00h27

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O lado sombrio do futebol argentino

Um enfrentamento entre facções rivais de torcedores do Huracán (Furacão), clube de Buenos Aires que hoje é líder da primeira divisão do futebol argentino, deixou dois mortos e quatro feridos no último domingo.

A briga começou ainda no estádio do bairro de Parque Patrícios, onde o Huracán venceu o Arsenal por 3 a 0. Seguiu para a rua, com armas brancas e de fogo, e depois para a porta do hospital Penna, onde um carro foi incendiado.

A briga entre torcedores do Huracán começou no estádio e terminou com duas mortes

Por trás da briga selvagem está o dinheiro: recursos da venda de entradas, de tíquetes de estacionamento e de alimentos no estádio. A possibilidade de acesso a fatias do possível prêmio aos jogadores pelo campeonato, que termina na próxima rodada, também teria agravado a situação.

As disputas internas de torcidas são comuns no futebol argentino. Envolvidos no cotidiano das equipes, os "barrabravas" (torcedores violentos) fazem dinheiro de atividades como segurança nos estádios e revenda de ingressos.

Em março, após um confronto a tiros entre alas rivais da “barrabrava” do Boca Juniors que deixou dois feridos e uma lanchonete destruída, o governo da Argentina informou que vai controlar o ingresso de torcedores de futebol nos estádios para evitar a entrada de vândalos.

Em outra tentativa de combater a violência no futebol, a AFA (Associação do Futebol Argentino, a CBF local) aprovou um “cadastro nacional de torcedores”, um registro prévio obrigatório para entrada nos estádios. A proposta é que o sistema _pelo qual cada torcedor receberia um cartão magnético com foto, nome, número de documento e impressão digital_ entre em vigor em 2010 na primeira divisão.

Mas, até agora, nada mudou.

Escrito por Thiago Guimarães às 02h31

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Crise no luxo argentino

Símbolo do luxo de Buenos Aires e da recuperação argentina pós-crise de 2001-02, a avenida Alvear sente os efeitos da crise mundial. Nos últimos meses, cinco marcas deixaram o local, por quedas nas vendas e dificuldades para importar.

A última a fechar suas portas na via comercial mais sofisticada da capital argentina foi a italiana Emporio Armani. A empresa que comercializa os produtos da marca no país foi afetada por entraves a importações impostos pelo governo argentino desde o início da crise como forma de proteger a indústria nacional. Em abril, promoveu um "queimão" com descontos de ate 60% _atraiu umas 1.250 pessoas.

Ponto da avenida Alvear onde funcionou a grife Hieber, hoje vazio

“A licença [de comercialização] não permite a fabricação local e obrigava a companhia a importar 100% dos produtos [Armani] vendidos na avenida Alvear”, informou a empresa Clothing Brands, que detinha os direitos da marca no país. As restrições também são alvo de reclamações brasileiras.

O movimento nos sete quarteirões da avenida, conhecida pelos palácios de inspiração francesa, galerias de arte e grifes de alta costura, também sobre impactos da queda no turismo e nos gastos dos visitantes.

“Primeiro vinham poucos turistas, depois chegaram os visitantes de má qualidade, que em vez de gastar 3.000 pesos [R$ 1.560] por algo de couro, compram uma camiseta de cem pesos [R$ 52]”, afirma o estilista Georg Hieber, 36, que fechou em março, após três anos, a loja da Alvear da grife nacional que leva seu sobrenome.

O turismo internacional na Argentina caiu pelo sétimo mês consecutivo em abril, último período disponível _baixa de 6% na comparação interanual. Já o dinheiro gasto pelos turistas caiu 20%. Os brasileiros, contudo, são os turistas que mais gastam no país _US$ 124 por dia.

O aviso de “aluga-se” já vai para o terceiro mês no ponto antes ocupado por Hieber. O aluguel da loja de 200m2 sai por US$ 5.500 (R$ 10,7 mil), e há ao menos outros três pontos vazios na avenida.

"Alugo": aviso expõe dificuldades no comércio da avenida da Recoleta

O corretor de imóveis Roberto Guichón diz que a proximidade das eleições no país, que elege legisladores no final do mês, também repercutiu no comércio na Alvear. “Os argentinos adiam suas decisões quando há eleições.” Ele avalia, porém, que a fase ruim é passageira. “A Alvear é uma avenida de glamour e sempre vai ser.”

Escrito por Thiago Guimarães às 19h26

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O lado B da cozinha portenha

Para não dizer que não falei de comida, apresento um dos guias mais inusitados da cozinha portenha.

Foi o que a jornalista americana Layne Mosler criou em quase dois anos de textos no blog Go Where the Taxista Takes You, que parte de um método simples para explorar o lado B dos restaurantes da cidade: as dicas dos taxistas locais.

Com sua ideia, que rendeu reportagens por todo o mundo, Layne segue agora para investigar os conhecimentos gastronômicos dos taxistas de Nova York.

Taxi Churrascaria, no bairro de Constituición: a última parada de Layne

No último verão, acompanhei Layne em uma de suas aventuras, que acabou em uma churrascaria da Grande Buenos Aires. O relato segue abaixo.

PS: Não está no blog, mas foi por Layne que conheci, na cidade que “vive de costas para o rio” _referência ao poluído rio da Prata_, um dos melhores lugares para se comer peixe em Buenos Aires, o Nemo. Acredite: na cidade da pizza e da carne, não é tarefa fácil.  

Giro em Buenos Aires

Blogueira norte-americana recorre a taxistas da capital argentina para descobrir restaurantes pouco conhecidos

Nada de parrillas em Puerto Madero ou restaurantes cool de Palermo garimpados em guias gastronômicos e de viagem. Para conhecer o lado B da cozinha de Buenos Aires, a jornalista norte-americana Layne Mosler, 34, elegeu um método muito simples: ela estica o braço e chama um táxi.

"Tenho um pedido estranho: pode me levar ao seu lugar preferido para comer?" É a senha de Mosler para a descoberta de tesouros secretos da culinária portenha, que descreve desde 2007 no blog www.taxigourmet.com, um guia pouco convencional escrito em inglês.

A Folha embarcou com Layne Mosler em uma de suas aventuras. Calejada por experiências com choferes que não entenderam bem o espírito da coisa, ela antes alerta: "Preparem-se para o rechaço".

O taxista Daniel, 38, não se opõe à ideia, mas sugere mais do mesmo. "Palermo tem de tudo." Enquanto rebate a proposta ("Procuramos um lugar de bairro"), Mosler perscruta a vida do motorista: descobre que já foi cozinheiro, trabalha 13 horas por dia e acha que Buenos Aires anda perigosa.

A viagem de 15 minutos termina em Boedo, o bairro do tango. Mas o Mi Lugar -uma parrilla de motivos tangueiros na rua Castro Barros- está fechado. Hora de trocar de guia. "Os taxistas costumam ser menos tímidos", comenta Mosler sobre o lacônico Daniel.

Longe do turismo

Ao sabor de alguns dos 38 mil taxistas da cidade, a jornalista explora a cozinha de bairros distantes do circuito turístico, como a da comunidade genovesa de Villa Devoto e a dos coreanos de Flores.

E arrisca até uma geografia das especialidades portenhas: San Telmo guarda as parrillas, a melhor pizza está no centro, Abasto ganha pelos peruanos, choripán (a versão argentina do pão com linguiça) é na avenida Costanera Sul.

Layne Mosler e o taxista José Luis, em viagem que acabou no Tía Margarita, no bairro de Caballito

Com a rodagem adquirida, Mosler se credencia a opinar em uma polêmica: a fama da carne argentina é exagerada? Diz que não, porém lamenta que a tradição de gado solto em campos abertos -um dos segredos do bife local- esteja perdendo espaço para a criação em regime de engorda confinada, em pequenos espaços.

Fora da cidade

A fome aperta e a busca continua com o taxista Mario, 52. Morador de Avellaneda, no sul da Grande Buenos Aires, diz nunca comer fora da vizinhança. Sugere um lugar por lá em que "a comida é sempre boa". "Não tenho dinheiro para ir sempre, mas levo a família quando posso", diz Mario.

Enquanto conta ter conhecido a mulher no táxi, o torcedor do Independiente ruma para a La Provinciana, na avenida Belgrano, uma mistura de rodízio e casa de festas na principal via comercial de Avellaneda. Nada animador, mas são as regras do jogo criado por Mosler.

Em meio a um globo espelhado, bufês de saladas, massas e peixes, o churrasqueiro sugere a colita de cuadril (alcatra) com chimichurri caseiro -molho típico a base de ervas. Mas quem quase faz valer a viagem, na opinião da autora do blog, é a molleja (timo).

Chorizo e vacio

Radicada em Buenos Aires há três anos, Mosler ainda não tolera alguns miúdos exóticos do churrasco argentino, como o chinchulin -intestino bovino. Elege por ora o bife de chorizo do Don Zoilo (av. Honorio Pueyrredón, 1.406, Villa Crespo) e o sanduíche de vacio (fraldinha) do El Litoral (r. Moreno, 2.201, em Balvanera) como os melhores.

Fez também, a pedido da Folha, um "top five" de suas peripécias de táxi por Buenos Aires. Acertos entre as mais de 50 viagens que, por refletirem o gosto local, muitas vezes terminaram -e mal- na tríade carne-massa-pizza de sempre. Daí a pergunta: os taxistas têm ou não as chaves dos segredos da cozinha portenha?

Para Mosler, suspeita por ter encontrado no projeto a ligação entre as paixões pela gastronomia e pela antropologia, sim. "Fui a lugares que nunca encontraria e a outros bem medíocres. Os taxistas oferecem um meio, não sei se o mais eficiente, mas com certeza é o mais interessante."

As cinco melhores dicas gastronômicas de taxistas portenhos em 2008, segundo Layne Mosler:

1. Albamonte - Av. Corrientes, 6.735 (entre Maure and Olleros) - Chacarita

2. Don Zoilo - Av. Honorio Pueyrredon, 1.406 (esquina Luis Viale) - Villa Crespo

3. Don Lechón - Av. Elcano, 3.607 (at Alvarez Thomas) - Colegiales

4. La Mezzetta - Av. Alvarez Thomas, 1.311 - Chacarita/Colegiales

5. Mi Sueño - Costanera Sul - um dos trailers da região da reserva ecológica Costanera Sul - um carrinho vermelho e amarelo, a um quilômetro da entrada da reserva

crédito das fotos: Layne Mosler e Joshua Partlow (Washington Post), em www.taxigourmet.com

 

Escrito por Thiago Guimarães às 00h25

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Segredos enterrados de Buenos Aires

Guiado por estudos, o arqueólogo Marcelo Weissel suspeitava que poderia haver algo ali, mas não esperava tanto. No último dia 29 de dezembro, em pleno Puerto Madero, a região mais cara de Buenos Aires, encontrou um barco do período colonial no canteiro de obras de um dos maiores projetos imobiliários do bairro: o Zencity, um complexo de quatro torres onde cada metro quadrado vale US$ 3.200.

Encontrado a oito metros do nível do solo, o navio já é classificado como a principal descoberta arqueológica de Buenos Aires. Em princípio foi tido como um galeão de guerra espanhol do final do século 17 ou início do século 18, mas hoje a hipótese mais provável é que tenha sido uma embarcação mercante, que encalhou em uma antiga praia do rio da Prata, hoje ocupada por terra _o rio sofreu diversos aterros ao longo dos anos.

Além do navio de esqueleto praticamente intacto, foi possível recuperar cinco canhões de uma tonelada cada um, garrafas de cerâmica, cordas e até uma bala de canhão. Agora esse segredo que ficou escondido por mais de 300 anos pode ser visto até 5 de julho, por uma passarela de 80 metros construída no canteiro de obras.


O bom estado de conservação do navio surpreendeu os especialistas 

Ainda não se sabe qual será o destino do navio após a exposição. Os arqueólogos buscam recursos para a conservação do achado, agora sujeito a erosão pelo contato com o ar.

Quando soube da descoberta do navio, fui atrás de mais histórias arqueológicas de Buenos Aires. Descobri, por exemplo, o trabalho de Ulises Camino, que promove escavações no bairro portenho de Flores em seus estudos de doutorado.

Camino trabalha em parede de casa do séc.19

Conhecido pela comunidade coreana, Flores fica a cerca de dez quilômetros do centro de Buenos Aires. Era um povoado separado da cidade, a qual se incorporou em 1888. Em um terreno de escoteiros à margem da linha Sarmiento do trem metropolitano, encontrou uma casa do século 19, com garrafas inteiras de rum, vinho, fragmentos de pratos, copos, taças, moedas de 1822 e 1861 e até um ferro de passar a carvão.

A equipe de Camino retira terra em busca de objetos do passado

A região onde Camino trabalha ainda conta com várias casas originais do século 19, que curiosamente eram construídas de frente para a linha do trem. “Flores era um lugar de veraneio, e as casas antigas eram erguidas de frente para a ferrovia porque o trem era o progresso, as pessoas gostavam de vê-lo passar”, diz Camino. De Flores a Buenos Aires levava-se seis horas de cavalo _trajeto que o trem reduziu para uma hora.


Casa do século 19 em Flores, construída de frente para a ferrovia

Camino lamenta a ausência de leis de proteção ao patrimônio que obriguem as empresas, por exemplo, a realizarem estudos de impacto arqueológico quando trabalham em áreas ricas em registros do passado. “Faltam arqueólogos e leis de proteção.”

Dezembro de 2008 foi um mês importante em descobertas arquológicas em Buenos Aires. Foi quando também se localizaram ruínas do Café de Hansen, considerada a primeira casa de tango da cidade, que funcionou entre 1877 e 1912. Os vestigios foram encontrados em meio aos bosques de Palermo, na esquina das avenidas Figueroa Alcorta e Sarmiento. Diz a lenda que ali nasceu e se popularizou o tango argentino.

Fachada do extinto Cafe de Hansen, ou Lo de Hansen, berço do tango portenho

 

Escrito por Thiago Guimarães às 00h53

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Taringa: mocinho ou vilão?

O Taringa! é um fenômeno da internet "hecho en la Argentina". Com pouco mais de dois anos desde sua última reformulação, é hoje o oitavo site mais visitado do país, tráfego superior ao da versão web do maior jornal local, o “Clarín”.

E não é fenômeno só na Argentina. Segundo o Alexa, é o 11º mais visitado no Uruguai, Bolívia e Panamá, 13º no Chile, Costa Rica e El Salvador, e assim vai pela América Latina espanhola. Ocupa ainda um honroso 1.442º lugar entre a infinidade de sites visitados desde os EUA. Já é também bem popular no Brasil _tem até versão em português.

 

Taringa: facilitando o download de conteúdos na net

 

Trata-se de um grande depósito de links criados por usuários (cerca de 1,6 milhão cadastrados) dispostos a compartilhar filmes, música, livros, software e tudo mais que se possa encontrar na internet sem pagar, ao ritmo de 5.000 novos posts por dia.

Daí o aspecto controvertido do site, já que a maior parte dos conteúdos é disponibilizado sem autorização dos respectivos autores. Ocorre que os usuários usam ferramentas externas, como o Rapidshare, para publicar links que remetem a blogs particulares.

Os donos do site _os irmãos Botbol (Matias e Hernán) e Alberto Nakayama_ lavam as mãos. Dizem não haver delito porque desconhecem o conteúdo dos blogs "linkados" no Taringa. Afirmam nunca terem sido processados, e que procuram sempre orientar quem se sente lesado em como agir para retirar o conteúdo da rede.

O Taringa é gratuito e funciona com uma espécie de escala social, pela qual os usuários trocam pontos _quanto melhor o post, mais pontos leva. Os “taringueiros” são divididos em “classes sociais” definidas por níveis de pontuação.

Inteligência coletiva ou apologia da pirataria? Discussões à parte, a julgar pela popularidade da iniciativa, é mais uma daquelas locomotivas irreversíveis da internet, dessa vez partindo de trilhas portenhas.

Escrito por Thiago Guimarães às 01h26

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O circo da política argentina

Em uma amostra do fastio dos argentinos com a política, um dos temas mais discutidos da campanha eleitoral no país, que elege senadores e deputados em 28 de junho, é uma paródia com imitações de figuras centrais da vida política local.

A revista "Notícias", crítica ao governo, apontou "vazio político" no país

A terceira edição do “Gran Cuñado”, paródia política do “Big Brother” exibida no programa na TV aberta de Marcelo Tinelli, o apresentador mais famoso do país. O canal de Tinelli é justamente o 13, do grupo Clarín, o maior conglomerado de mídia do país, em confronto aberto com o governo por mudanças que os Kirchner tentam promover na regulação da setor.

"Hasta la Victoria Secret", é o grito da Cristina de Tinelli

Imitadores fingem interagir em uma casa, reforçam traços caricatos dos políticos, vão ao “paredão” e são eliminados pelo público. Analistas discutem o eventual impacto eleitoral do programa, líder de audiência no horário, com uma média de 30 pontos de rating.

O Néstor Kirchner de Gran Cuñado

Uma pérola do “Gran Cuñado” se deu nesta última terça-feira, quando o ex-presidente (1989-1999) e atual senador Carlos Menem, com todos os seus processos por supostas irregularidades cometidas em seu governo, apareceu na casa para interagir com as imitações. Uma cena surreal, já inscrita nos anais do folclore político argentino.

Em pleno desfrute do ostracismo, e lembrado só quando há audiências de seus processos, Menem conseguiu mais espaço na mídia por sua aparição no "Gran Cuñado" de que quando lançou sua candidatura à Presidência em 2011, na semana passada.

Nove minutos antológicos da TV argentina

Crédito reproduções de TV: "La revista del perro cholulo"

Escrito por Thiago Guimarães às 02h30

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Brasileiros na publicidade argentina

Foi por linhas tortas que fui descobrir, aqui na Argentina, o trabalho de uma dupla brasileira de DJs de primeira.

Nem sabia o que se vendia naquela propaganda, mas a música acionou meu sempre alerta lado Tony Manero, que foi logo ver qual era.

Um remix do duo carioca The Twelves para “Rich Girls”, da banda de NY The Virgins. Um alfajor pra quem ficar parado.

Ah, e a propaganda? De uma marca conhecida de aperitivo daqui, Gancia. Saiu do ar, mas caiu na rede.

 

Escrito por Thiago Guimarães às 02h14

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Baú do rock argentino - parte 2

Nasceu em 10 de março de 1950, onde nem ele mesmo queria precisar. “Me lembro muito pequeno em Santa Isabel, Santa Fé. Um povoado onde acho que nasci; ali ou em Buenos Aires, não sei onde nasci, acho que em Buenos Aires, mas estive nos dois lugares”, disse à “Rolling Stone” de junho de 2000.

Morreu 54 anos depois, em 25 de fevereiro de 2005, em um acidente de moto na rodovia 5, em Luján, Grande Buenos Aires. Levou 3.000 pessoas ao seu enterro no cemitério da Chacarita, na capital argentina, sob o som de "Desconfio" (1972): "Um velho blues / me fez lembrar os momentos da minha vida / meu primeiro amor / mas aqui estou tão sozinho na vida / que melhor me vou".

Tempo suficiente para Norberto “Pappo” Napolitano se inscrever na galeria do rock argentino como um de seus fundadores e maior guitarrista. Sentiu a veia roqueira aos 14, depois de uma sessão de Little Richard. Trocou o violão pela guitarra e dali foi a uma vida de rock 'n' roll da mais fina estirpe. Em 1971, aos 21 anos, já lançava em disco seu primeiro projeto, Pappo´s Blues. Teve suas épocas hard rock/metaleira com o Riff, gravou em São Paulo com o Patrulha do Espaço, abriu para AC/DC, Stones, Guns 'n' Roses no auge, dividiu palco com B.B King no Madison Square Garden.

B.B King e Pappo no Madison Square Garden, 1993

"Rolling Stone" argentina, junho de 2000

Para quem quiser mais conhecer mais a música e a história de Pappo, um bom começo é seu site oficial e vídeos disponíveis no You Tube, como este abaixo:

Pappo: "Blues de Santa Fé"

Pappo (1950-2005)

Discografia aqui

E as sugestões do blog (que ainda está longe de ter escutado tudo do mestre):

"Pappo´s Blues 3" (1973) - Pappo´s Blues

"Aeroblus" (1977) - Aeroblus

"Volúmen 7" (1978) - Pappo´s Blues

"Ruedas de Metal" (1981) - Riff

"Macadam 3...2...1...0" (1981) - Riff

"Pappo en Concierto" (1984) - Pappo

 

Escrito por Thiago Guimarães às 01h27

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Campo e operários X Cristina

Ali pelo final de março estive em Armstrong, polo agricultor e da indústria de máquinas agrícolas na Província de Santa Fé, a 400 km de Buenos Aires.

A cidade é cenário de um fenômeno particular, retrato da crise econômica no país: produtores rurais e metalúrgicos se uniram nos reclamos contra o governo.

A passagem rendeu algumas fotos interessantes (não sou fotógrafo, mas às vezes tento), que deixo com uma versão ampliada do texto publicado na ocasião:

Crise une operários e campo contra Cristina

Polo da indústria de maquinário agrícola, cidade de Armstrong é microcosmo dos efeitos da queda do preço dos grãos na Argentina

Metalúrgicos, apoiados por ruralistas, cobram governo em tradicional encrave peronista; aliança é ameaça eleitoral para Casa Rosada

São 15h30 da última quarta-feira e caminhões formam fila na rodovia que liga as três maiores cidades da Argentina -Buenos Aires, Rosário e Córdoba. Metalúrgicos bloqueiam a via com pneus em chamas, liberando a passagem a cada 15 minutos. Ao lado, uma barraca de produtores rurais e a faixa: "Armstrong em pé".

Polo da indústria de máquinas agrícolas, Armstrong é a cara da crise econômica na Argentina. Na cidade de 15 mil habitantes, operários metalmecânicos afetados por suspensões se uniram a ruralistas -em conflito com o governo há um ano- na mobilização pela queda de impostos no setor rural.


Metalúrgicos e ruralistas protestam em Armstrong

Campo e governo estão em guerra na Argentina desde março de 2008, quando a presidente Cristina Kirchner alterou a tributação sobre exportações de soja, principal cultivo do país. Os impostos deveriam variar segundo o preço internacional do produto, então em alta. Produtores promoveram cinco greves e 4.000 bloqueios de estrada e a medida acabou derrubada no Senado.

Em 2009, a pior seca em 50 anos e a crise mundial derrubaram os preços de grãos, mas a alíquota sobre a soja segue a 35%. Os produtores pararam de investir e o conflito com o governo ressuscitou -os ruralistas encerraram em 28 de março o sétimo locaute sob Cristina.

A novidade é que a crise mundial paralisou a indústria ligada ao campo e reforçou o elo operário-agricultor. Em Armstrong, as 74 fábricas de máquinas agrícolas perderam 80% em vendas desde novembro, cortando jornadas e salários dos 1.554 operários, que deixam de comprar.

"No conflito do campo em 2008, a cadeia de valor agroindustrial tomou consciência de si mesma. Hoje um trabalhador que fabrica colheitadeiras sabe que seu posto de trabalho depende da rentabilidade do campo. Isso deu ao campo um peso eleitoral maior do que antes", diz o analista Rosendo Fraga.

Queda de salários

Camisa na cabeça pelo sol, Lorenzo Bersano, 56, engrossa o bloqueio da via em frente à Crucianelli, a fábrica de semeadoras em que trabalha há 40 anos. Jornada reduzida de 12 para 5 horas, trabalha pela manhã e protesta à tarde. Com dois filhos e três netos, viu seu salário cair de R$ 2.400 para R$ 1.100: "O governo tem que resolver essa situação".

Lorenzo Bersano, 56: trabalho pela manhã e protesto à tarde

O contador da Crucianelli, Carlos Montano, 53, diz que a produção da empresa caiu de 60 para 10 máquinas/mês. Apesar do corte na jornada, a empresa ainda paga oito horas/dia aos operários _a baixa salarial vem do fim de horas extras e de prêmios por produtividade. “Estamos nos esforçando para não despedir.”

A poucos metros dali, o ruralista Dionisio Quiroga, 39, procura ferramentas em seu carro, um utilitário Ssangyong ano 2000, para ajudar um metalúrgico que participa do bloqueio. Produtor de carne, soja, milho e alfafa, critica as “retenções extorsivas” sobre as exportações e justifica sua presença: “Os metalúrgicos estão ficando sem trabalho pelos problemas do campo.”

Dionísio Quiroga, 39, e seu trator com a inscrição-protesto: "vendo"

A crise rompeu limites de fábricas e plantações. Na livraria de Miguel Degrá, presidente do Centro Comercial, Industrial e Rural da cidade, as vendas caíram 35%: "Fomos nos dando conta de que o problema é de todos". Para Maurício Cicarelli, dono de uma loja de ferramentas, está "tudo parado".

O primeiro ato conjunto de operários e agricultores pós-crise mundial foi em janeiro em Villa Constituición, outro polo industrial da Província de Santa Fé. Na ocasião, ante 2.500 pessoas, o presidente da Federação Agrária, Eduardo Buzzi, disse que aquilo era "referência" da luta por vir.

Em Armstrong, os metalúrgicos se dizem "autoconvocados", por não terem apoio do seu sindicato, a UOM (União Operária Metalúrgica), aliada do kirchnerismo. "O problema já é multissetorial, é uma má administração do governo", diz o líder Ruben Cicarelli.

Em 26 de março, Cicarelli e Buzzi foram oradores em um ato de forte tom opositor que reuniu 5.000 pessoas no bloqueio da rodovia. Entre o público, chapéus de produtores misturavam-se a bonés de metalúrgicos. O produtor Quiroga levou seu trator com a inscrição “vendo”. Sentado na máquina, o operário Raul Espíndola, 35, três filhos: “Vamos caindo um por um.”

Metalúrgicos da fábrica de tornos Giugge protestavam por trabalho


Eleições

Para o analista Fraga, essa nova união vai repercutir nas eleições legislativas de junho na Argentina -que o governo acaba de antecipar em quatro meses. Embora o campo empregue 9% da população economicamente ativa, diz, a cadeia agroindustrial gera emprego para 35% que "vão votar pensando na renda do campo".

O prefeito de Armstrong, Fernando Fischer, que governa a cidade há 20 anos, é exemplo de político que fez de encraves rurais peronistas centros opositores. Apesar de integrar o Partido Justicialista (peronista, do governo), não poupa críticas. "Néstor Kirchner tem ódio do campo", diz, em referência ao ex-presidente.

Enquanto o governo defende sua política de impostos como forma de redistribuir renda, os operários de Armstrong, e os ruralistas, prometem ficar na estrada até que haja uma solução -hoje completam um mês de bloqueio. "Vamos ficar até que se destrave o conflito", diz Cicarelli, sob o calor do sol e dos pneus queimados.

P.S: Na última semana liguei para o líder sindical Rubem Cicarelli para saber como estava a situação em Armstrong, dois meses depois. Disse que os metalúrgicos deixaram os protestos na rodovia, mas continuam mobilizados porque a crise não cedeu. Uma prova está em informe oficial divulgado na mesma semana: as vendas de máquinas agrícolas caíram 69,8% na Argentina no primeiro trimestre de 2009 em relação ao mesmo período de 2008, como consequência da crise mundial, da seca e do conflito campo-governo.

Escrito por Thiago Guimarães às 00h51

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A batalha midiática das eleições

Segundo dia de campanha eleitoral na Argentina e uma amostra da batalha midiática que está por vir.

20h30, horário nobre da última terça feira, dia 12. A presidente Cristina Kirchner e um setor importante da oposição protagonizam atos simultâneos.

A TV Pública e o canal de noticias a cabo C5N, o preferido do governo, que monopoliza "furos" e entrevistas com membros do gabinete nacional (Néstor Kirchner falou por 40 minutos com uma rádio do grupo nesta terça-feira), além de boa fatia da publicidade oficial, transmitiam:

Cristina ao vivo no canal 7 (TV Pública)

A C5N, que vem transmitindo na íntegra e ao vivo discursos de Néstor Kirchner, com a presidenta no ar

O canal de notícias TN (Todo Notícias) integra o grupo Clarín, que se afastou do governo durante o conflito com o setor rural _antes chegaram a manter associações táticas_ e agora está em plena batalha com a gestão Kirchner em razão das mudanças que o oficialismo quer promover na regulação do setor (tema de post mais abaixo). O América 24, outro canal fechado de noticias, tem entre seus donos o empresário Francisco de Narváez, principal oponente de Néstor Kirchner na disputa eleitoral de junho. As eleições desses canais para o horário nobre de ontem:

A aliança de centro-esquerda entre UCR, Coalizão Cívica e socialismo lançava seus candidatos oficialmente ontem ao vivo pela TN

Elisa Carrió, referente da oposição no país, na telinha da América 24

Para reflexão, deixo trecho de artigo publicado ontem por Rosendo Fraga, um grande analista da realidade argentina, no site de seu instituto de pesquisa, o Nova Maioria:

"Na noite de 28 de junho [após as eleições], a informação oficial reivindicará que o governo ganhou [as eleições] como primeira minoria, somando votos de governadores que se mantiveram fieis ao oficialismo e dispersando a apresentação de votos opositores. Pelo contrário, a oposição apresentará os resultados em termos de cadeiras e fará a soma de modo diferente. [...] No conflito para impor a interpretação do resultado entre oficialismo e oposição, o papel dos meios [de comunicação] será importante."

É uma batalha que está apenas começando.

Escrito por Thiago Guimarães às 01h59

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A Argentina e a crise

A Vila 17 de Novembro é a maior invasão de terras da história recente argentina. Remete à data em que 7.500 famílias ocuparam um terreno alagadiço do tamanho de 13 campos de futebol, em Lomas de Zamora, na periferia pobre de Buenos Aires.

Contatei um líder comunitário e, no último dia 28, fui visitar a invasão. Encontrei um local inabitável aos meus olhos de classe média: lixo, entulho e esgoto corrente em um terreno tomado por água contaminada _situação que, pela inclinação natural do terreno, se agrava a cada chuva.

Ali também conheci pessoas como a paraguaia Catalina Aguero, 45, que mostrava com bom humor a palafita erguida pelo marido carpinteiro em meio à água poluída. “Tenho minha ilha de Caras.”

E o também paraguaio Alfredo González, 46, que aterrava com entulho o pedaço de brejo em que espera viver no futuro. “Aqui ninguém te ajuda, temos que lutar com as próprias mãos.”

Voltei surpreso por encontrar alegria e esperança em um lugar tão triste. E pensando que a tal busca incessante por felicidade pode ser mais simples _um pouco daquela culpa que move a esmola, redime todo o mal e se esvai no semáforo seguinte.

Deixo o texto que surgiu dessa visita, que parte da experiência dessa favela em construção para tratar da pobreza na Argentina e dos impactos da crise econômica no país:

Por fora das estatísticas, pobreza e desemprego crescem na Argentina

Em meio à crise, 7.500 pessoas invadem terras na periferia de Buenos Aires

Enquanto para o governo da Argentina a pobreza atinge o menor nível em 20 anos -um dos vários índices oficiais sob suspeita de manipulação no país-, a crise econômica viu surgir a maior invasão de terras da periferia de Buenos Aires.

Batizada Vila 17 de Novembro, a enorme favela em construção alude à data em que 7.500 pessoas tomaram uma área de 14 x 6 quarteirões (cerca de 1.400 x 600 metros) de escombros, lixo e água poluída em Lomas de Zamora, a 15 km do Obelisco.

Ali a Folha encontrou o brasileiro César Ramirez, 30, que trocou o trabalho na soja em Naviraí (MS) pela vida no entorno pobre da Grande Buenos Aires. Casou-se e teve um filho no país e agora torce pela posse da terra. Desempregado, montou uma despensa em casa onde vende "até óleo por litro, como os argentinos". "Aqui [Argentina] não tem serviço."

Entrevistando o brasileiro César Ramirez, que montou uma venda na invasão

Ramirez e a Vila 17 de Novembro são expressões da crise econômica na Argentina, que repete o roteiro visto em outros países, com queda na atividade econômica e no comércio exterior, mas também expõe fraquezas do modelo kirchnerista -gestões Néstor (2003-2007) e Cristina Kirchner. Mostram aumento da miséria e deterioração do mercado de trabalho que números oficiais não alcançam.

Para o governo, pobreza e desemprego caíram em 2008 e chegam, respectivamente, a 15,3% e a 7,3% da população. Para calcular o número de pobres, o governo usa o custo da cesta básica -medido com índices de inflação sem credibilidade desde janeiro de 2007, por mudanças de metodologias no Indec (o IBGE local).

"Recalculamos o custo da cesta todo mês e temos diferenças de 50% com o governo. Quando usamos essa cesta, a pobreza não diminui, mas volta a aumentar a partir de 2007", afirma o economista Ernesto Kritz, para quem 11,2 milhões de argentinos (32% da população do país) vivem abaixo da linha de pobreza.

Segundo Kritz, a crise mundial retraiu o consumo e ajudou a baixar a inflação de alimentos, maior responsável pelo avanço da pobreza. "Mas o que se poderia ter ganho com a desaceleração se perdeu na piora do mercado de trabalho."

A Vila 17 de Novembro é um mar de pobreza a 15 km do Obelisco

Outro termômetro da crise argentina é o serviço estatal de conciliação obrigatória para a abertura de ações trabalhistas. No último dia 28, dezenas de pessoas se aglomeravam por atendimento em um só balcão.

"Não temos recursos humanos e materiais para atender a todos", disse o atendente Federico Vendejo. Segundo ele, 40 mil pessoas já abriram ações no serviço neste ano -60% a mais em relação a 2008.

Desemprego

Não há dados consolidados sobre demissões no país, mas desde o início da crise o governo passou a complementar em até R$ 350 os salários de 60 mil trabalhadores privados, sob o compromisso temporário de 1.200 empresas de não demitir.

Para Kritz, há pelo menos 320 mil desocupados fora das cifras oficiais. O governo diz que a economia cresceu 2,4% no primeiro bimestre deste ano -de 2003 a 2008 o PIB avançou, em média, 8% ao ano-, mas informes privados apontam recessão desde outubro.

Anunciada no verão, a bateria de medidas anticrise do governo não decolou. Centrada em créditos para a compra de carros e de eletrodomésticos, atingiu, em média, 10% das metas de vendas. "Anunciava-se um plano de troca de geladeiras, mas no dia seguinte não havia geladeiras nem financiamento", afirmou Vicente Lourenzo, da Confederação Argentina da Média Empresa.

Isolada do crédito internacional desde o calote de sua dívida, em 2002, e com empréstimos que representam apenas 12% do PIB, a Argentina sofreu pouco o contágio financeiro inicial da crise. O impacto veio com as quedas no intercâmbio comercial (30%) e no ritmo de crescimento da arrecadação, que se mantém em alta (14% em abril) pelo efeito da inflação e da estatização dos fundos privados de previdência.

Crianças da Vila 17 de Novembro brincam em água insalubre

Fuga de capitais

"A estatização gerou uma saída de capitais ainda maior na economia", afirma Marina Dal Poggetto, da consultoria Bein e Associados. A fuga de capitais chegou a US$ 23 bilhões em 2008 e neste ano já supera em 150% a do mesmo período do ano passado.

Dos superávits que sustentaram os anos de crescimento, o comercial se mantém pelos entraves a importações adotados pelo governo desde o início da crise -e que reduziram em 43% as vendas brasileiras ao país vizinho neste ano. Já o superávit fiscal registrou queda de 61% em março, em um cenário de gastos em alta e compromissos financeiros crescentes.

O economista Aldo Ferrer, ligado ao governo, afirma que a Argentina está longe de uma crise como a de 2001-2002. "A situação fiscal está sólida e não há problemas de dívida. O setor financeiro está sólido e solvente, e o banco central tem bom nível de reservas [US$ 46 bilhões; o Brasil tem US$ 201,5 bilhões] e capacidade de administrar o câmbio."

Longe dessa discussão e perto da crise, o brasileiro César Ramirez tem outra preocupação: o destino de seu lote invadido na Vila 17 de Novembro. Após seis meses, a área foi declarada de interesse público para desapropriação, mas a negociação do Estado com os donos das terras segue a passos lentos. "Se tudo der certo, em um ano volto para o Brasil."

Um sonho conjunto: entrada de uma das casas da Vila 17 de Novembro

 

Escrito por Thiago Guimarães às 01h40

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PERFIL

Thiago Guimarães Thiago Guimarães, 29, é correspondente da Folha em Buenos Aires. Foi produtor e repórter da Rede Minas de Televisão, correspondente da Folha em Belo Horizonte, repórter e coordenador-assistente da Agência Folha.

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